NEP RibeirÃo NEP RibeirÃo
-->

Terapia Familiar

PRECISAMOS SER AMADOS, MAS POR QUE AMAMOS?*



Elenice Alves Gomes

Terapeuta de Casal e Família pela Universidade Federal de São Paulo

Professora Supervisora Didata pela Sociedade de Psicodrama de São Paulo

Mestre em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo

Cocoordenadora do curso de especialização em Terapia Familiar e de Casal pela Escola de Sociodarma Familiar Sistêmico de Ribeirão Preto/SP



Introdução

O que é o Amor?

O significado do termo pode variar de pessoa para pessoa, de acordo com sua cultura, valores e mitos adquiridos ou aprendidos. Há pessoas também que não sabem definir ou sequer discorrer sobre o assunto.

A palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. “Pode significar afeição, compaixão, misericórdia ou ainda uma inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, sofisticação, conquista, desejo, libido, etc. Porém, o conceito mais popular envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém ou com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e alimentar as estimulações sensoriais e psicológicas necessárias para sua manutenção e motivação.” (Google, Wikipédia). Segundo o dicionário Aurélio é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem ou de alguma coisa. Para Fromm (1964, prefácio), “o amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana.”

Quais são então os possíveis objetos de amor? A natureza, a vida, Deus, o próximo, si próprio, os animais e objetos materiais ou coisas. Podemos abordar vários tipos de amor dentro de um panorama familiar ou sistêmico: amor entre pais e filhos, amor fraterno, o amor familiar mais amplo (avós, tios, primos) ou amor conjugal.

Seguindo o caminho do amor conjugal perfazemos um percurso instigante, mais propriamente o amor entre um homem e uma mulher de orientação heterossexual, na sociedade ocidental contemporânea. Sabemos da necessidade do ser humano de ser amado e cuidado desde a mais tenra idade, mas por que amamos? Por que homens e mulheres, à revelia das mudanças de configurações familiares na contemporaneidade, buscam incessantemente acasalar-se? Essa é uma questão tão antiga quanto nossos antepassados e ao mesmo tempo, tão atual.


Desenvolvimento do Tema


Ao percorrermos historicamente a tipologia do amor, vemos que o amor romântico já aparece na história da vida social humana no Banquete de Platão (séc. V a . C .), passando pela tragédia de Romeu e Julieta de Shakespeare (séc. XVI) até os dias de hoje. (Fisher, 2006). Como antropóloga e pesquisadora americana de grande experiência no tema, Fisher iniciou uma investigação em 1996 sobre a experiência de estar enamorado, abordando questões como:


Por que amamos?

Por que escolhemos quem escolhemos para amar?

Como variam os sentimentos românticos entre homens e mulheres?

Amor e desejo.

Amor e casamento.

Amor e ódio.

Como tem evoluído o amor.


Para essa autora - Fisher (2006), o amor romântico é uma das três redes cerebrais primordiais que evoluíram para dirigir o acasalamento e a reprodução. As outras duas são: desejo e carinho. O desejo, a ânsia de satisfação sexual desde nossos antepassados tem nos motivado encontrar a união sexual de maneira pouco discriminada. O amor romântico, a euforia e a obsessão de “estar enamorado” impele o indivíduo a concentrar esforços no cortejo de um só indivíduo de cada vez, gastando assim um tempo e uma energia de inestimável valor para o acasalamento. O carinho, o sentimento de calma, paz e segurança que sentimos com freqüência num casamento duradouro, evoluiu para motivar nossos antepassados a amar seu parceiro o tempo suficiente para, pelo menos, criarem juntos seus filhos. O amor romântico está profundamente enraizado na arquitetura e na química do cérebro humano.

Em seu estudo Fisher utiliza a tecnologia de escaner cerebral da imagem por ressonância magnética funcional (IMRf), com a finalidade de registrar a atividade cerebral de homens e mulheres que acabavam de enamorar-se perdidamente. Para isso, a pesquisadora contou com numerosa equipe multiprofissional de colaboradores que trabalharam durante seis anos, escaneando cérebros de mais de quarenta homens e mulheres loucamente enamorados, recolhendo aproximadamente cento e quarenta e quatro imagens da atividade cerebral de cada um. A metade dos participantes era composta de homens e de mulheres cujo amor era correspondido; o resto havia sido rechaçado pela outra pessoa do par romântico. Para assegurar-se de que a correspondência no amor é uma característica da paixão romântica universal, a autora a utilizou como base para elaborar um questionário com 54 questões específicas sobre o amor romântico. Com a colaboração de outros pesquisadores, distribuiu esses questionários entre homens e mulheres da Universidade de Nova Jersey e da Universidade de Tókio.

Os resultados foram surpreendentes. Foram encontradas diferenças de gênero que poderiam explicar por que os homens respondem tão apaixonadamente aos estímulos visuais e por que as mulheres podem recordar os detalhes de uma relação. Outros resultados puderam demonstrar que a paixão é um impulso humano fundamental. Assim como necessitamos de alimento e água, apaixonar-se é inerente à natureza humana, trata-se de uma necessidade fisiológica, um impulso profundo, um instinto que insiste em cortejar e conseguir um determinado companheiro para acasalar-se. Esse impulso inspirou inúmeras obras de teatro, novelas, óperas, músicas, poemas, esculturas, quadros, mitos e lendas das mais diversas culturas e épocas. As adversidades, com freqüência alimentam a chama da paixão: barreiras sociais e políticas (ex: Romeu e Julieta) ou físicas (os amantes vivendo em lugares diferentes) são capazes de esquentar ainda mais o enamoramento. Esse foi certamente o aspecto mais surpreendente da pesquisa da autora referenciada: a adversidade como mola propulsora do relacionamento!

Em outro estudo sobre cento e sessenta e seis culturas diferentes, os antropólogos (ainda segundo Fisher, 2006) encontraram vestígios de amor romântico em cento e quarenta e sete, ou seja, em 90% delas.

Todos nós, quando nos enamoramos, experimentamos uma mudança brusca em nossa consciência: o objeto de nosso amor se converte em algo novo, único e extremamente importante, sem o qual nossa vida perde o sentido e a graça. O ser amado passa a ser engrandecido, passa a ter suas qualidades positivas sempre ressaltadas, sendo ignorado flagrantemente outros atributos que poderiam ser percebidos como negativos. É o “efeito das lentes rosas”. Os entrevistados da pesquisa afirmaram pensar em seu amado durante 85 % do tempo que passam despertos. Reconheceram que o amante centra toda sua atenção em uma só pessoa quando ama. Sendo assim, não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. A ânsia de fundir-se ao ser amado está presente em toda a literatura universal: é considerada como um estado de ansiedade. Quando o objeto de amor se afasta ou mostra indiferença, o amante começa a desesperar-se. Alguns povos no sul da Índia, inclusive, têm até um nome para esse mal-estar: mayakkam, que significa embriaguez, delírio. Esta necessidade é tão grande que os psicólogos acreditam que a percepção que o amante tem de si mesmo se desfigura. Como dizia Freud (citado também por Fisher, 2006, p.38): “Em seu ponto máximo, o estado de enamoramento ameaça destruir as barreiras entre o sujeito e o objeto”. Fica então estabelecida a total dependência emocional do amante.

Como o desejo de fusão interpessoal é um anseio muito poderoso do ser humano, o fracasso em realizá-la significa loucura ou destruição.

Tanto Freud quanto outros autores afirmam que o desejo sexual é o componente- chave do amor romântico. Mas não é suficiente. Os que estudam o Kamasutra, o manual amoroso da Índia do século V, sabem que a palavra love procede do sânscrito lubb, que significa desejar. O desejo sexual é, portanto, conseqüência natural do amor romântico e um ponto de partida, não um fim em si mesmo. Além disso, os amantes não desejam que sua “sagrada” relação seja maculada por outras pessoas. Querem também fidelidade sexual.

Este desejo de garantir a fidelidade sexual durante o cortejo, por sua vez, vem acompanhado de um traço menos atrativo do amor romântico, ao que Shakespeare denominou “o monstro dos olhos verdes”: os ciúmes. Como se advertia em I Ching, o livro chinês da sabedoria escrito há mais de três mil anos, “a relação íntima só é possível entre duas pessoas; onde se juntam três, nascem os ciúmes”. Porém, Capellanus escreveu em seu livro sobre as regras do amor cortês: “aquele que não sente ciúmes não é capaz de amar”; denominou o ciúme de “nutriz do amor”, porque acreditava que ele alimentava o fogo romântico (apud Fisher, 2006, p. 49).

O desejo de se relacionarem sexualmente e a ânsia da fidelidade sexual são menos importantes para os amantes que o desejo de uma união emocional com o ser amado. Tanto o homem quanto a mulher enamorados querem que a pessoa amada diga: “Te adoro!”, que traga flores ou algum outro agrado, que lhe faça rir e que a abrace e a cubra de atenção. O amante sofre, e muito, quando o seu amor não é correspondido. O amor romântico é involuntário, incontrolável, ele governa a alma do amante.

Amar verdadeiramente alguém não se trata de fazer uma fusão do tipo simbiótica, imatura, mas de dar uma resposta amadurecida ao problema da existência.

Infelizmente, a maioria das pessoas é incapaz de desenvolver as capacidades humanas do amor no nível que tem importância real segundo Fromm (1964): um amor composto de maturidade, autoconhecimento e coragem. Ele questiona: o amor é uma arte? Se o é, exige conhecimento e esforço como em qualquer outro tipo de arte, seja a culinária, a médica, a terapêutica, as artes plásticas etc. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, que o amor é uma sensação agradável, que “cai de para-quedas”, quando se tem sorte; nessa perspectiva, o problema do amor é um problema de objeto e não de uma faculdade; pensa-se que amar é simples, mas é difícil encontrar o objeto certo a amar, ou pelo qual ser amado. Isso porquê, como em qualquer arte é importante o conhecimento da teoria e da prática devidamente articuladas. A teoria do amor a que Fromm se refere requer discernimento sobre os vários e possíveis objetos de amor. E objeto, nesse caso, não equivale a “coisa”, mas o sentido é epistemológico, ou seja, objeto é a quem o amor é direcionado. E considera-se aqui exclusivamente amor entre pessoas, excluindo Deus e objetos materiais. Então, é importante que os personagens ou atores em cena tenham consciência das diferenças entre os seguintes tipos de amor: amor entre pais e filhos, amor fraterno, amor próprio e amor erótico (entre casais).

Em termos existenciais, é fundamental compreender que o ser humano emergiu do reino animal, da adaptação instintiva, transcendeu a natureza, embora sendo parte dela e foi dotado de razão e emoção. Daí surge a consciência de si mesmo, da finitude da vida, de seu apego primevo e a consequente separação e finalmente, de sua solidão. Para não enlouquecer e conseguir fazer com que a vida seja suportável, o indivíduo busca unir-se a outro(s) ser(es) humano(s). A história da filosofia é a história dessa busca incessante e suas diversas formas. O desejo de fusão interpessoal, por ser o mais poderoso anseio da humanidade, torna-se a força que conserva junta a raça humana, a família e a sociedade.

Em síntese, amar é dar o que tem de si, é cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Amar é preocupação ativa pela vida e pelo crescimento de quem amamos, é atender às demandas do ser amado. A responsabilidade, não tida como obrigação, mas no sentido de responder às necessidades, inclusive psíquicas de alguém, ser responsável pelo outro. Respeitar alguém não é temer, é a capacidade de ver esse alguém tal como é, em sua singularidade. Respeitar significa ausência de exploração do outro. Para isso é necessário alcançar a própria independência ou individuação. Não é possível respeitar uma pessoa sem conhecê-la. E existem vários níveis de conhecimento. O ato de conhecer é movido pela preocupação e é infinito, mas não insondável. Conhecer a si próprio, para conhecer o outro e assim, conhecer a humanidade. Por mais que conheçamos, nunca conheceremos tudo. Entretanto é uma questão imperiosa para o ato de amar. Para isso, o diálogo e todas as formas de comunicação são imprescindíveis.

Quando o bebê humano nasce e tem uma “mãe suficientemente boa”¹, é acolhido, alimentado, recebe calor, disponibilidade e principalmente segurança. Nesse período peri-natal, para ele, a mãe e ele são uma coisa só. Ao crescer e desenvolver, essa criança aprende a perceber e a lidar com o mundo como ele é e também aprende a nomear as coisas. Tudo isso será integrado na sua experiência e decodificado como ser amado. Mas ainda é uma experiência passiva. O amor da mãe é incondicional e oferece tudo que a criança precisa; esta apenas recebe. A função materna, portanto, é basicamente acolher, nutrir, dar continente e ser referência fundamental à criança, configurando autoridade perante ela. No processo de socialização - geralmente com a chegada de irmão(s) ou entrada na escola - a criança começa a aprender a dar, por exemplo, desenhos e músicas que faz, tanto à mãe quanto ao pai. Sai do seu estado passivo e narcísico e começa a experimentar os sentimentos de união, a vivência de uma relação de dar e receber. Começa a produzir amor. Na adolescência, vai superando seu egocentrismo e busca novos parceiros para o exercício amoroso; deixa de amar porque é amada, mas passa a ser amada porque ama. Exercita a condição ativa do amor. A função paterna é constituída também de autoridade, orientação (guia para a vida) e crescimento. É importante que o pai seja um homem tolerante e paciente ao invés de autoritário e ameaçador. Finalmente, aliados e apoiando-se mutuamente enquanto autoridades, pai e mãe oferecem ao filho a capacidade de cuidar de si; o pai dando seu exemplo, referência masculina e função paterna de colaborar para com o crescimento da criança e a mãe sendo modelo, referência do gênero feminino e exercendo a função materna de acolhimento.

O indivíduo precisa também ter consciência do amor fraterno (irmãos, colegas, amigos), que alicerça outros tipos de amor, porque é o amor para com todos os seres humanos, em última instância. Essa é a genuína experiência de união, compartilhamento, solidariedade, divisão de bens e tarefas, trabalho em equipe, sincronismo e ajuda mútua.

Mas será necessário ter também amor próprio. Se fixado psicologicamente em sua experiência primitiva e levado às últimas conseqüências, o amor próprio cristaliza-se no narcisismo. Mas há que superá-lo, senão instala-se o egoísmo, a incapacidade de viver experiências recíprocas com outras pessoas. Falta-lhe interesse pela necessidade alheia, respeito por sua dignidade e integridade. Toda sua preocupação volta-se para si mesmo. Os outros indivíduos tornam-se “coisas”, conforme sua utilidade. Em contrapartida, a abnegação total de si mesmo também pode ser considerada como expressão da falta de amor. Não se considerar importante, deixa o indivíduo se sentindo infeliz, com a auto-estima baixa; seus relacionamentos com os outros não serão, por conseguinte, satisfatórios, porque a responsabilidade por sua existência e bem-estar fica sempre com outra pessoa.

Por fim, o amor erótico é a expressão do anseio de fusão completa, de união com outra pessoa. É perigoso por sua natureza exclusiva, diferente do amor de pais para filhos e fraterno, cujo objeto amoroso pode ser múltiplo. O desejo sexual é necessário para a aproximação de dois parceiros, propicia e facilita a intimidade, a superação do estranhamento. Mas é o amor que os manterá unidos e é necessário que esse amor seja também fraterno. Assim, superam a solidão de cada um, podendo instalar-se a solidariedade, a cumplicidade, o companheirismo e a colaboração, num ato de vontade e entrega mútua.

E quanto tempo dura essa magia do amor?...

Ninguém o sabe. Assim como o amor chega espontaneamente, também pode desvanecer-se de repente. Como dizia Platão (citado por Fisher, 2006, p.52): “Por natureza, o amor não é mortal nem imortal, mas em um mesmo dia pode florescer e viver, morrer e de novo voltar a reviver.”

O amor é volúvel, inconstante, pode expirar, reavivar e voltar a apagar-se. O fogo no coração dos amantes tende a diminuir quando o casal se acostuma aos prazeres cotidianos da união, sendo freqüentemente substituído pelo outro elegante circuito do cérebro: o apego, os sentimentos de serenidade e união com o ser amado. Nesse sentido, é importante o casal cultivar o amor fraterno entre ambos, onde atitudes de parceria, ternura e carinho são fundamentais, sem serem meramente sublimação do instinto sexual. São redes diferentes, porém complementares e necessárias às uniões que se pretendem duradouras. A duração do amor varia de acordo com os personagens implicados e suas disponibilidades para investir no vínculo amoroso.

Infelizmente a duração do amor erótico em nossa sociedade atualmente tem sido pequena; varia de dias a semanas, alguns meses ou poucos anos. Por quê? Há muitos casais que se separam ainda se amando.

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês ainda em atividade e naturalizado na Inglaterra, afirma que a era da modernidade líquida em que vivemos - um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudanças rápidas e de forma imprevisível - é fatal para nossa capacidade de amar, seja em qualquer tipo de amor. “...Nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade - e frequentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual -, não sabemos mais manter laços a longo prazo...” (2004, “orelha” de capa)

Na nossa sociedade, o “ficar”, fase anterior ao namoro, comportamento tido como típico de adolescentes até pouco tempo atrás, começa a se estender para idades mais velhas. É possível perceber certo temor e até desdém quando a questão é o compromisso num relacionamento, tanto para homens quanto para mulheres.

“Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante... O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos de seu “valor monetário”. Na melhor das hipóteses, os outros são avaliados como companheiros na atividade essencialmente solitária do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cuja presença e participação ativa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmo, e por essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor.” (Bauman, 2004, p. 65)


Qual é então nosso desafio, enquanto terapeutas, na clínica de atendimento a casais?

Bert Hellinger (2004) afirma que não basta amar. Para que o amor dê certo é preciso que exista outra coisa ao lado dele e essa coisa foi denominada por ele de “ordem oculta do amor”, que nos preexiste. Ela atua, mesmo que não a entendamos. Não é inventada, mas encontrada. É por seus efeitos que a descobrimos. Como descobrimos o sentido e a alma. Para ele, aquilo que diferencia os homens das mulheres, que realmente os diferencia, é escondido. Ou, pode-se dizer também, é protegido. Pois é o lugar onde cada um é mais vulnerável. É o lugar próprio da vergonha. Vergonha significa, neste contexto, que se guarda alguma coisa, para que nada de ruim aconteça. E é o lugar onde nos sentimos mais entregues. E continua Hellinger nesta mesma obra afirmando que a ordem do amor entre um homem e uma mulher exige, em primeiro lugar, que o homem admita que falta a ele a mulher, e que ele, por si só, jamais poderá alcançar o que uma mulher tem. E exige igualmente que a mulher admita que falta a ela o homem, e que ela, por si só, jamais poderá alcançar o que o homem tem. Então ambos se experimentam como incompletos e admitem isto, sem necessidade de competirem ou de tentarem se tornar auto-suficientes. Quando o homem admite que precisa da mulher e que só através dela se torna um homem, e quando a mulher admite que precisa do homem e só através dele se torna uma mulher, então essa carência os liga um ao outro, justamente pelo fato de a admitirem. Então o homem recebe o feminino como presente da mulher, e a mulher recebe o masculino como presente do homem e isto os mantêm juntos. Quando o homem e a mulher se aceitam mutuamente como tais, a consumação de seu amor cria um vínculo e esse vínculo é indissolúvel. A realização do amor cria uma ligação independentemente do casamento ou de qualquer rito externo. A existência de tal ligação e a profundidade do vínculo é percebida pelos seus efeitos. É importante observar uma ordem do amor, uma ordem de precedência no amor. Ela se orienta pelo começo. Isto significa que o que vem antes tem, via de regra, precedência sobre o que vem depois. Numa família, existe primeiro o casal homem-mulher. Seu amor funda a família. Por isso, seu amor como homem e mulher tem precedência sobre tudo o que vem depois, portanto, sobre seu amor de pais por seus filhos. Muitas vezes acontece nas famílias que os filhos atraem sobre si toda a atenção. Então os pais não são antes de tudo um casal, mas pais. Com isto os filhos não se sentem bem e pode advir daí “angústias inomináveis”. (Winnicott, 1979)

Houve o caso clínico de um casal em terapia onde ele era mais velho que ela mais de dez anos e pai de duas filhas adultas de outro casamento anterior. Ela era mãe de outras duas filhas crianças, cada uma de seus dois casamentos anteriores. Ambos tiveram um bebê homem de sete meses. Procuraram terapia de casal porque havia um emaranhamento em seus papéis conjugais e de pais de filhas de parceiros diferentes. Segundo as palavras da terapeuta de uma das filhas dela, o casal era “platéia de filhas”, haviam se perdido na conjugalidade. Eles se conheceram quando estavam separados de casamentos anteriores e se enamoraram. Na avaliação diagnóstica que sempre é feita no início do atendimento a casais, no aspecto afetivo do relacionamento, ambos ressaltaram a existência do amor pelo parceiro, depois de cinco anos casados. Bom prognóstico! É o que se apresentava. Foram sendo mapeados os primeiros conteúdos manifestos do relacionamento no que diz respeito ao tripé de sustentação do casamento: o projeto comum de vida, a sexualidade e o campo afetivo. Na seqüência foi montado o setting com cadeiras vazias e almofadas representando a família reconstituída, de maneira que a cada sessão - quando necessário - era possível retomar sempre a mesma configuração representativa, onde as filhas dele se situavam ao lado dele, as dela do lado dela e no meio e em frente ao casal se situava o bebê filho de ambos. Foi detectada a identificação de cada um com as respectivas filhas a partir da “criança interna” de ambos. Esse termo deve ser entendido como “a parte infantil no adulto que representa a necessidade humana de recapturar a originalidade e a emoção da criança frente ao estresse e à extrema racionalidade do cotidiano”. (Cukier, 1998, p.17)

Este era o principal aspecto de afastamento do casal. Então o tratamento consistiu em reordenar os amores precedentes de cada um; do marido para com seus pais, ex-mulher e filhas e da mulher também para com seus pais (que incluía um padrasto), dois ex-maridos e respectivas filhas.

O trabalho caminhou no sentido do conhecimento de cada um de si próprio e do parceiro, utilizando-se de um importante instrumento conhecido dos terapeutas sistêmicos, que é o genograma. Tal instrumento possibilita investigar e tratar todos os vínculos familiares. As várias formas de amar na vida de cada um foram amadurecidas.

¹ Expressão utilizada por Winnicott (1979): aquela mãe disponível que alimenta, atende às necessidades do bebê e oferece segurança.


Considerações finais


Nós, terapeutas, sabemos da complexidade da realidade e do difícil manejo no trabalho com casais e famílias reconstituídas. Isso nos exige total disponibilidade, concentração e centralização em nós mesmos, para podermos penetrar nos meandros tanto da particularidade conjugal, bem como da reconstituição familiar e estar por inteiro com nossos pacientes. É preciso que nossas histórias amorosas pessoais estejam bem elaboradas.

O Psicodrama, criado por Jocob Levy Moreno, tem uma técnica considerada áurea pelos psicodramatistas que é a Técnica da Inversão de Papéis. Quem não é psicodramatista e assistiu ao filme “Se eu fosse você” protagonizado por Glória Pires e Tony Ramos, pode captar o espírito da técnica. O diretor Daniel Filho, com grande sensibilidade e humor, sugere o exercício de marido e mulher viverem a rotina de cada um no lugar do outro por um período. É isso que a técnica oferece: a possibilidade de cada membro do casal se colocar no lugar do parceiro e experimentar viver, sentir e pensar como se fosse o outro. Ela é extremamente útil e importante no trabalho com casais em momentos apropriados e adequados no intercurso do processo terapêutico.

Penso que nosso desafio profissional - enquanto terapeutas de famílias - na era da nossa “modernidade líquida” (termo utilizado por Bauman, 2004) está no resgate de valores como ética, solidariedade, respeito e aceitação das singularidades nas relações humanas. Isso vale para qualquer relacionamento, mas especialmente o de um casal, porque é a gênese da família. Além de termos um papel profissional importante do ponto de vista histórico, temos também uma responsabilidade social.

Entendo que precisamos encorajar nossos pacientes a terem relacionamentos mais duradouros quando há amor, motivando-os a fazerem cada vez mais o bem ao ser amado, para que possam viver a plenitude de suas principais redes cerebrais: enamoramento, desejo realizado e união duradoura. Nossa tarefa é também ajudar os casais que atendemos a ter consciência disso e eles devem fazer suas escolhas. “A escolha fundamental que todos nós enfrentamos em nossa busca da felicidade. Uma escolha que deve ser feita diariamente e depois firmemente mantida e reafirmada dia após dia”. (Bauman, 2009, p. 161)

Como precisamos ser amados na infância, amar é uma condição essencial e necessária na vida adulta para o desenvolvimento de uma cultura de paz e não-violência. É uma questão de sobrevivência da humanidade!

O desafio está lançado!!!


Bibliografia:

Bauman, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade das relações humanas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2004.

Bauman, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2009.

Cukier, Rosa. Sobrevivência emocional. As dores da infância revividas no drama adulto. Ágora, 1998.

Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986.

Fromm, Eric. A Arte de Amar. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1964.

Google, site de pesquisa na Internet. O significado da palavra amor, in cachê http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor, 2007.

Fisher, Helen. Por qué amamos: Naturaleza e química del amor romántico. Buenos Aires, Punto de Lectura S.A., 2006.

Hellinger, Bert. A Simetria Oculta do Amor. São Paulo, Cultrix, 2004.

Winnicott, Donald Woods. A criança e seu mundo. Trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1979.


*Artigo publicado no livro “O desafio do Amor: uma questão de sobrevivência”, publicado em 2010 pela Editora Roca.

NEP RIBEIRÃO

Endereço: Rua Garibaldi, 3190 - Alto da Boa Vista - CEP: 14025-190 - Ribeirão Preto - SP

Fone/FAX: (16) 3911-5038