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Terapia Familiar

ÁTOMO CONJUGAL



Elenice Alves Gomes*

INTRODUÇÃO



Inicialmente é interessante colocar o vocábulo ÁTOMO na compreensão do vernáculo brasileiro: para o dicionário Houaiss, a palavra átomo é um substantivo masculino, vindo da química, que significa a menor parte de um elemento que pode existir sozinha ou em combinação com outra.

Ao tomarmos as "Palavras de Jacob Levy Moreno" (Ágora, 2002) encontramos a expressão ÁTOMO SOCIAL diversas vezes em "Quem Sobreviverá?" e "Who Shall Survive?", explicitadas pelo próprio criador do Psicodrama, que para ele basicamente é a menor unidade da matriz sociométrica de um indivíduo. Precedendo esta expressão, encontramos o termo ÁTOMO CULTURAL, abordada em "Psicodrama" e todas suas traduções em língua espanhola e inglesa, como segue:

"(...) Ao padrão de relações em torno de um indivíduo, como seu foco, dá-se o nome de seu átomo cultural. Todo indivíduo, assim como tem um conjunto de amigos e um conjunto de inimigos - um átomo social - também possui uma gama de papéis que se defronta com uma outra gama de contra papéis".

Ainda em "Psicodrama":

"(...) O emprego da palavra "átomo" pode ser justificado ao considerarmos um átomo cultural como a menor unidade funcional num padrão de cultura. O adjetivo "cultural" justifica-se quando consideramos os papéis e relações entre papéis como o desenvolvimento mais significativo em qualquer cultura específica" (independentemente da definição que for dada à cultura por qualquer escola do pensamento).

Já em "Quem sobreviverá":

"(...) O padrão focal das relações de papéis ao redor do indivíduo é chamado de átomo cultural. Estamos, aqui, cunhando um novo termo, "átomo cultural", já que não sabemos de nenhum outro que expresse esse fenômeno peculiar de relacionamento de papéis. Obviamente o termo foi selecionado em analogia ao termo "átomo social". A utilização da palavra "átomo", aqui, pode ser justificada ao considerarmos um átomo cultural como a menor unidade funcional dentro de um padrão cultural. O objetivo "cultural" pode ser justificado ao considerarmos papéis e relacionamento entre papéis como o desenvolvimento mais importante dentro de uma cultura específica. A organização sócio-atômica de um grupo não pode ser separada de sua organização cultural-atômica. Os dois átomos, cultural e social são manifestações da mesma realidade social".

Mas átomo conjugal passei a investigar a partir do caso que se segue:



CASO CLÍNICO



A e B constituem um casal heterossexual jovem, na faixa etária entre 35 e 40 anos, com um casal de filhos pequenos: uma menina de 4 e um menino de 1 ano. Procuraram terapia porque têm se desentendido muito. Moravam na capital de um estado brasileiro onde ambos trabalhavam até terem filhos. Ao nascer a primeira filha, decidiram por um novo projeto de vida, mudando-se para o interior. A esposa deixou de trabalhar e o marido pediu demissão de um bom emprego para começar uma nova carreira profissional na cidade onde residem os pais de ambos; este acordo foi explicitado entre eles. Depois do nascimento do segundo filho, os desentendimentos entre o casal aumentaram em função de viagens subsequentes que o marido faz. A esposa se sente muito sobrecarregada com as tarefas domésticas e cuidados familiares; não pode contar muito com ajuda dos avós e não têm dinheiro suficiente para contratarem cuidadores ou "baby sitters" para as crianças; e se queixa que ele está sempre entre amigos, com oportunidades de relacionamentos que ela não tem tido.

Investiguei separadamente o átomo social de ambos.

Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com o átomo social dela muito mais rico em número de pessoas do que o dele. O átomo dele foi representado por apenas 4 almofadas, além da dele: uma para a família nuclear (esposa e os dois filhos), uma para o trabalho, uma para o esporte que pratica desde os 7 anos de idade e uma única para toda a família extensa, incluindo pais, sogros, irmãos, sobrinhos, tios e primos.

O marido não tem mais avôs paternos nem maternos; a esposa tem apenas avó materna.

Ela, filha única, representou seu átomo com inúmeras almofadas: uma única também para a família nuclear (marido e filhos), uma para a mãe, outra para o padrasto, 4 para as melhores amigas (uma para cada uma), uma para cada uma das duas tias maternas, dois primos (a quem pretende convidar para serem padrinhos do seu filho mais novo), a avó materna e as duas cunhadas. O sogro e a sogra estão ausentes; não se dá bem com eles e os ignorou.



CONSTRUINDO O SOCIOGRAMA DO CASAL



Moreno, ao analisar o desenvolvimento de uma relação matrimonial típica de um casal heterossexual, afirma em Psicodrama (1987, p 401) que "duas pessoas antes de se casarem têm distintos átomos sociais. Esses, ou são independentes um do outro ou, no máximo sobrepõem-se parcialmente". Já no período peri-matrimonial, há uma tendência de quase superposição dos átomos sociais de ambos. Seus átomos sociais modificam-se à medida em que alteram seus comportamentos e organização social em função do casamento. Com o advento de novos papéis sociais, marido e esposa e consequentemente genro, nora, cunhados e depois da chegada dos filhos, também os papéis sociais de pai e mãe, todos ou alguns destes papéis podem debilitar ou intensificar papéis pré-existentes ao matrimônio, como amigos e laços de parentesco com as famílias de origens, por exemplo. Além disto, papéis psicológicos ou psicodramáticos vão se modificando ao longo da trajetória do casal em sua vida em comum.

O papel de amantes, por exemplo, que é comumente pleno de mutualidade no início do relacionamento, vai perdendo força à medida que o casamento se alonga. O papel de provedor e dona-de-casa podem se fortalecer em relação inversa à de papel de amantes. Os papéis parentais podem corroborar o de provedor e dona-de-casa com relação ao papel de amantes ou também entrar em rota de colisão entre si, ao invés de se tornarem cúmplices ou parceiros.

No momento da pesquisa, o sociograma do casal se encontrava assim:

Atomo conjugal

Na intersecção de seus átomos individuais, o casal compartilhava os seguintes aspectos:

PositivoPositivos: os filhos, os pais dela (mãe e padrasto) e as irmãs dele.

NegativoNegativos: Os papéis de amantes, dele de provedor e dela de dona-de-casa.

Para todo papel existe um contra papel. No nosso caso em estudo, os papéis parentais encontravam-se alinhados. O relacionamento do marido com suas irmãs e destas com a esposa também. Quanto aos pais do casal, identificamos uma ótima relação do marido com os sogros e da esposa com os próprios pais. Podemos dizer que há uma relação télica em todos estes relacionamentos. Observamos também que os papéis de provedor e dona-de-casa se antagonizam, ao mesmo tempo que os papéis de amantes se encontram atrofiados. Embora houvesse acordo explícito entre o casal para o desempenho dele de único provedor da família, ela se ressente muito por ter deixado seu trabalho para cuidar da casa e dos filhos; disso decorre aspectos psicológicos de ciúme e inveja dela com relação a ele, fato já mencionado anteriormente pelas recorrentes queixas dela com relação às ausências dele no lar e consequente desentendimentos entre eles.



PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS



Os procedimentos sociométricos para obtermos os átomos sociais dos indivíduos são capazes de investigar a configuração pessoal de cada cônjuge.

Neste caso estudado, solicitei uma sessão separada para cada um para investigarmos cada átomo social. Foi explicado previamente a ambos que, o que seria feito com um também seria feito com o outro, para posteriormente retomarmos o trabalho conjunto.

A tomada dos papéis em cada átomo social, um por um, é feita por cada um dos protagonistas na construção de seus átomos pessoais, podendo serem feitas tantas sessões quantas necessárias para esgotar esta investigação.

O ÁTOMO CONJUGAL pretende investigar os papéis que são comuns aos cônjuges no momento da investigação e nessa intersecção, identificar aspectos positivos e negativos que nos servem tanto como diagnóstico do relacionamento conjugal, como também como um guia para o início da terapia. Ao construir o Sociograma do casal (já desenhado na página anterior), podemos detectar estes aspectos do relacionamento. é nos aspectos positivos que a Terapia de Casal irá se ancorar para desenvolver o processo terapêutico. Assim, os aspectos negativos poderão ser trabalhados dramaticamente, apoiados na Teoria de Papéis e Vínculos, na Telerrelação e no desenvolvimento criativo e espontâneo dos atores em cena, tendo a Matriz de Identidade como marco do desenvolvimento humano.

Posteriormente à investigação dos átomos sociais de cada cônjuge, na confrontação de seus átomos próprios, é construído e trabalhado o átomo comum, que é o conjugal.



CONCLUSÃO



Este tem se mostrado um recurso técnico de excelência nesta modalidade terapêutica. E esta modalidade requer muita delicadeza e atenção à aliança de trabalho equitativa entre o (a) terapeuta e cada membro do casal.

Obviamente muitos papéis psicológicos estarão presentes no relacionamento do casal e que não passa somente pela intersecção dos átomos sociais de ambos. E é importante ressaltar que estamos falando de uma terapia processual.

Poderá haver casos em que não há intersecção alguma entre os átomos sociais do par que se pretende conjugal. Então é o caso de perguntarmos: há, de fato, um casamento em curso?

O delineamento do Átomo Conjugal, por fim, de um lado, poderá proporcionar o diagnóstico do casal e um guia aos terapeutas e, de outro, uma oportunidade aos cônjuges de reconstruírem conjuntamente o que têm em comum, explicitando seus desejos, fantasias, expectativas e necessidades, de onde poderão emergir papéis psicodramáticos ou psicológicos a serem atuados no setting e contexto dramáticos, apontando recursivamente novos caminhos possíveis de reconstrução relacional.

*Psicodramatista pela Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP)

Psicodramatista Didata Supervisora pela Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP)

Mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo/SP (USP)

Terapeuta Familiar Sistêmica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Coordenadora do Núcleo de Psicodrama e Sistêmica (NEPSIS) em Ribeirão Preto e co-coordenadora da Escola de Sociodrama Familiar Sistêmico (ESOFS) em Ribeirão Preto/SP.



BIBLIOGRAFIA



Cukier, Rosa - PALAVRAS DE JACOB LEVY MORENO - Editora Ágora, São Paulo, 2002.

Landini, José Carlos - PSICODRAMA: SEXUALIDADE E TERAPIA DE CASAL - Editora Juruá, Curitiba, 2014.

Moreno, Jacob Levy - PSICODRAMA (I) - Editora Cultrix, São Paulo, 1987.

Moreno, Jacob Levy et al.- PSICODRAMA (III): TEORIA DE AÇÃO E PRINCÍPIOS DA PRÁTICA - Daimon: Centro de Estudos do Relacionamento, São Paulo, 2006.

Seixas, Maria Rita D"Angelo - SOCIODRAMA FAMILIAR SISTÊMICO - Editora Aleph, São Paulo, 1992.

**Trabalho apresentado em formato de Workshop no XII Congresso Iberoamericano de Psicodrama em Lisboa, maio de 2017.



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