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Elenice A. Gomes¹

Psicodramatista Didata Supervisora pela SOPSP/FEBRAP
Mestre em Psicologia Social pela USP
Terapeuta de Casal e Família pela UNIFESP/APTF

OFICINA DE GÊNERO – SER MULHER

RESUMO

A autora divulga uma experiência feita com um grupo fechado e homogêneo sobre a condição feminina no século XXI. Descreve passo a passo o processo de co-produção sociopsicodramática. Espera que possa servir de referência para a multiplicação da experiência em qualquer lugar do planeta.


DESCRITORES

Gênero, identidade, vínculo e papel.


ABSTRACT

The author publishes an experience made with a closed and heterogeneous group about the female condition in the century XXI. Describes step by step the coproduction’s sociopsychodramatic  process. Waits can to serve of reference for the multiplication of the experience in any place of the planet.


KEYWORDS

Gender, identity, bond and role.


Introdução

Esse trabalho que descreverei é desdobramento de uma tentativa anterior de realizarmos, Célia e eu, um workshop de Casal e Gênero, cuja frustração se deu devido ao desinteresse de homens ribeirãopretanos pelo assunto. Reformulamos então outra proposta, dessa vez de uma oficina onde trabalharíamos exclusivamente com o gênero feminino, cujo desenvolvimento compunha-se de quatro sessões com três horas de duração cada uma e com intervalos quinzenais entre uma e outra. Isso aconteceu entre setembro e início de novembro de 2008.  Nosso núcleo de direção foi ampliado e contamos com psicodramatristas entre as quais, além de Célia Ferreira Santos e eu, Ani Cintra e Oliveira e Ana Cecília Chaguri. Esse trabalho teve como público-alvo mulheres com interesse em sua evolução e transformação pessoal, cujo objetivo foi propiciá-las a um mergulho em sua própria alma. Contamos com a participação de dezesseis mulheres de faixa etária entre 30 e 85 anos de diferentes atividades profissionais, incluindo donas-de-casa. Todo o workshop desenvolveu-se através do método psicodramático.


Desenvolvimento do Tema

Tendo em vista que a mulher teve novos papéis sociais demarcados pela revolução feminista do século XX, entendemos que as conquistas obtidas por essa revolução provocaram mudanças profundas nas relações dessa nova mulher com o mundo e consigo mesma, trazendo novas questões, tais como:

•Substituir papéis tradicionais ou conciliá-los?

•Ser mãe ou não? Como?

•Ser profissional e/ou dona-de-casa?

•Ser esposa, amante e/ou cuidadora?

•Como ser tudo isso e ainda organizar seu tempo e elaborar sua vida afetiva?

A partir destas questões, iniciamos nossa Oficina de Gênero com apresentação formal da equipe de coordenação, bem como das participantes. Em seguida fizemos o aquecimento inespecífico com a música “Lança Perfume” da Rita Lee, estimulando o relaxamento corporal e a aproximação de todas nós, para depois fazermos o aquecimento específico da questão “Ser Mulher”, através da pesquisa individual dos chacras e seus significados: coronário, frontal, laríngeo, cardíaco, plexo solar, esplênico e básico. Na sequência, pedimos que andassem pela sala procurando pares, onde conversariam sobre os papéis que estavam desempenhando em suas vidas. Cada par procuraria outro par, de maneira que no quarteto (no total de quatro) uma relataria sobre a outra (seu par) para o outro par. Nosso objetivo era despertar a atenção e percepção da parceira. Cada quarteto apresentaria o resultado de sua conversa à platéia em forma de dramatização. Com bastante espontaneidade/criatividade e muito material de camarim à disposição, as cenas abertas revelaram cenas familiares fictícias, onde vários papéis foram desempenhados. Da produção dramática e seu compartilhamento resultou que Ser Mulher hoje requer:

•Suportar a loucura através da doçura e sensibilidade

•Equilibrar os diversos papéis

•Ter charme

•Amar e ser amiga

•Poder ir e vir e também se divertir

•Mudar, tirar as amarras

•Trocar a tristeza pela alegria

O segundo encontro iniciou-se pela questão de Gênero: Masculino e Feminino (Cuschnir, 1992), Identidade de Gênero: Homem... Homem e Mulher... Mulher (Costa, 1994) e Papel de Gênero ou Papéis Sociais (Moreno, 1993). O objetivo era buscar a Matriz de Identidade de cada participante, obtendo a construção do Eu, sua relação com o Tu e com o Ele de cada uma. Fomos para o aquecimento inespecífico com a música “Feminina” de Joyce e depois para o aquecimento específico da construção da identidade de gênero, onde usamos o Psicodrama Interno na linha do tempo em seu contexto familiar, no qual o papel de filha culminaria numa imagem do vínculo mãe-filha. Seguíamos um roteiro pré-concebido ao final do qual havia a seguinte questão: “Que diferenças há em ser mulher hoje em comparação ao tempo de sua mãe?” Utilizamos como música de fundo uma Ária de Bach. As imagens foram dramatizadas abertamente uma a uma, fazendo emergir lembranças da relação real e estritamente diádica, com identificações e contra-indentificações fortes com o papel materno. Em seguida fizemos o compartilhamento.

O terceiro encontro seguiu-se à semelhança do segundo, porém a construção imagética foi para o vínculo pai-filha. O roteiro pré-estabelecido para esse Psicodrama Interno terminava com a seguinte questão: “Olhando para os homens que gostei (ou ainda gosto), eles têm qualidades ou defeitos que identifico em meu pai?” Nessa construção de imagem vincular com o pai a cena não ficou restrita à díade pai-filha; parceiros atuais ou antigos compuseram o quadro. Embora a questão comparativa estivesse explícita no roteiro, o co-inconsciente familiar revelou-se na escolha de parceiros de algumas mulheres. A presença do Ele também possibilitou a circularização de algumas mulheres com outros homens. As experiências dramáticas foram de profunda emoção grupal, seguidas de compartilhamento.

O último encontro iniciamos com a distribuição de cópias de textos retirados da internet (Google: Mulheres no século XXI), tais como: “O que pode uma mulher no século XXI” e “A esposa do século XXI” de Elisabeth Cunha, “Mulheres querem sexo sem tabus” de Marta Sofia Ferreira, “Psicóloga reflete sobre o que é ser mãe no século XXI” de Bianca Justiniano e “Mulheres de 30 do início do século XXI” de Karen Camargo. Trabalhamos todos os textos em subgrupos. A formação desses se deu por afinidade com os textos apresentados. Terminamos com um debate acerca do tema geral. Afinal, COMO é ser mulher no século XXI? A dramatização aconteceu através da confecção de cartazes feitos a partir de colagens elaboradas pelos subgrupos nos quais continha uma síntese de avaliação final de todo nosso trabalho ao longo dos quatro encontros.

Encerramos nossa Oficina com uma grande roda de compartilhamento afetivo.


Considerações Finais

Esta foi uma experiência extremamente enriquecedora para nosso trabalho clínico tanto como psicodramatistas em atendimento individuais e grupos quanto como terapeutas de casal e família em atendimentos vinculares. O workshop nos deu um parâmetro diagnóstico da condição da mulher nos dias de hoje, especificamente na realidade de Ribeirão Preto/SP.

O grupo de mulheres com as quais trabalhamos nos mostrou que o mundo hoje pode ter novas cores, sabores e amores. Há muitas lutas ainda para serem enfrentadas, especialmente no que diz respeito às condições de trabalho e jornada dupla. Muitos papéis e contra-papéis requerem robustez ou redefinição para requalificarem ou ressignificarem alguns vínculos. Mas principalmente, há muita ESPERANÇA!

Só temos a agradecer a valiosa participação destas mulheres valentes que nos escolheram para juntas enfrentarmos esse mergulho na psique feminina.
Esperemos que um dia possamos fazer este mesmo tipo de trabalho com homens que se disponham a mergulhar em sua psique masculina!

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Bibliografia

Costa, Ronaldo Pamplona da. “Os onze sexos – As múltiplas facetas da sexualidade humana” São Paulo, Editora Gente, 2ª edição, 1994

Cuschnir, Luiz. “A mulher e seus segredos: desvendando o mapa da alma feminina”. São Paulo, Larousse do Brasil, 2007.

Cuschnir, Luiz. “Masculino/Feminino”. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1992.
Moreno, Jacob Levy. “Psicodrama”. São Paulo, Editora Cultrix, 9ª edição, 1993.

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1. Trabalho enviado pela autora ao conselho editorial da Revista Brasileira de Psicodrama para ser publicado.

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